Escolha sua linguagem: Português Espanhol
 
 

Multiestatal cuidará de Gasoduto no sul das Américas

Fonte: Terra Magazine

Rafael Ramirez, bacharel e mestre em engenharia mecânica pela Universidade dos Andes, com a experiência de ter feito o projeto de gás natural líquido da Nigéria na França e ter desenvolvido o projeto de adequação da refinaria de Cardón nos EUA, é quem cuida do petróleo na Venezuela.
Em entrevista ao site Terra, o atual presidente da PDVSA e Ministro de Energia e Petróleo venezuelano, afirma que o Projeto do Grande Gasoduto do Sul não é utopia e sim uma realidade para esse próximo decênio, não escondendo a dimensão do projeto do presidente Hugo Chávez “A Venezuela aposta na integração sul-americana no econômico, social e no político”.

Leia a entrevista na íntegra extraída do site Terra, no último dia 1º de dezembro

Terra Magazine – O anunciado gasoduto entre Venezuela e Brasil é factível, será construído mesmo, ou é apenas uma utopia? Rafael Ramirez - É claro que é factível. O mais importante para que o projeto do Grande Gasoduto do Sul seja uma realidade no próximo decênio é que exista consenso político e que conte com a aprovação dos governos da Argentina, Brasil, Bolívia, Paraguai, Uruguai e Venezuela; isso já aconteceu em julho passado. Este projeto se construiu, como disse o presidente Hugo Chávez, na coluna vertebral para a integração latino-americana e para que se consiga superar os grandes problemas que nos afetam.

TM – Qual é o roteiro? RR – Para materializa-lo, em uma primeira etapa o Grande Gasoduto do Sul sairá desde a Península de Paria, na Venezuela, atravessando todo o norte do Brasil até chegar à cidade de Fortaleza. Porém, logo se estenderá por todos os países integrantes do Mercosul. Nós contamos com as maiores reservas de gás da região, um importante recurso energético que pomos à disposição para o desenvolvimento de nossos países.

TM – Em que ponto, em que pé, estão as negociações? RR – A Comissão Permanente de Engenharia e Coordenação, integrada pelos 6 países está avançando em aspectos técnicos como definição de mercado, traçado, e cronograma de construção. Agora estamos trabalhando com a Petrobrás sua participação no Projeto Marechal Sucre, numa área da costa noroeste da Venezuela, de onde se prevê extrair o gás que impulsionará o Grande Gasoduto do Sul.

TM – Quais são os principais envolvidos no acordo para o gasoduto? RR – O Grande Gasoduto do Sul é a ponta de lança para concretizar o projeto de integração mais importante da região. E por isso ele não é excludente. Até o momento, o consenso político permitiu a incorporação dos 5 países do Mercosul e mais a Bolívia como membro associado, através de um memorando de adesão. Estamos falando de 250 milhões de pessoas que terão um recurso energético que permitirá o progresso e seu bem-estar. Nós não podemos ser grandes se tivermos a miséria ao lado.

TM – Qual é o montante de investimentos para que o gasoduto se torne uma realidade? RR – À diferença de outros projetos energéticos que satisfazem interesses meramente econômicos, o Grande Gasoduto do Sul será uma obra extraordinária que, além de ser rentável, se construirá com a finalidade de assegurar os meios para uma efetiva integração regional. O fato é que estamos utilizando o gás natural como caminho para o desenvolvimento sustentado a longo prazo. Até esse momento nós estimamos o investimento global, para a construção do gasoduto, em U$ 20 bilhões.

TM – Que empresas participarão da distribuição? RR – O acordo político nos permitiu avançar no estabelecimento de um tratado para manejar o gasoduto. Para isso se constituirá uma empresa multiestatal com representação de todas as nações participantes e suas empresas, como Enarsa (Energia Argentina AS), Petrobrás, YPFB (Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos), A PDVSA, da Venezuela, Petropar e Ancap. Já fizemos a parte mais difícil , e agora o técnico e o comercial continuarão a avançar.

TM – A situação criada na Bolívia, com decisões do presidente Evo Morales que afetaram interesses brasileiros, não levou a um clima de desconfiança? RR – As negociações entre Brasil e Bolívia são assuntos que os dois países estão resolvendo. A Venezuela aposta na integração sul-americana nos campos econômicos, social, e no político.

TM – Com quem joga a Venezuela nesse debate? Fica com a posição e os interesses do Brasil ou da Bolívia? RR – A Venezuela não joga com nenhum país; como te disse, só apostamos na união de países irmãos apoiados por esquemas de complementaridade, irmandade e reciprocidade.

TM – Como está a refinaria de Pernambuco? Quanto custará e quem são os investidores? RR – Há poucos dias os presidentes Lula e Hugo Chavez visitaram o campo de Carabobo II, na faixa Petrolífera do Orinoco, na Venezuela, e conheceram os resultados da quantificação e certificação que fizeram a Petrobrás e a PDVSA em Carabobo I. A empresa canadense Ryder Scott certificou que há nessa área suficiente hidrocarburo para executar quatro grandes projetos de 200 mil barris diários.

TM – E isso significa... RR – Esse era o primeiro passo. Contamos com a volumetria necessária para o desenvolvimento do projeto de óleo cru extrapesado, que contempla em complexo de processamento e a construção da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. O investimento estimado é de mais de US$ 5 bilhões, em partes iguais entre PDVSA e Petrobrás. Ambas as empresas têm a previsão de anunciar conjuntamente uma série de acordos nesse sentido.

TM – A empresa de Hugo Chavez no Oriente Médio é geopolítica, ideológica... RR – A Venezuela tem como um de seus objetivos mais importantes em matéria Política Internacional à construção de um mundo pluripolar, e suas ações, suas relações políticas e econômicas caminham nesse sentido. A partir do primeiro triunfo eleitoral alcançado pelo presidente Chavez, em dezembro de 1998, a Venezuela empreendeu uma importante ofensiva para recuperar o verdadeiro papel da OPEP (Organização dos Paises Exportadores de Petróleo), e no esforço para resgatar o papel dessa instituição no mercado energético mundial com o objetivo de alcançar um preço justo para o barril de petróleo, concertamos políticas com os nossos aliados árabes.

TM – Mas essa política... RR – ... a Presença da Venezuela na região não é recente: além de relações históricas, tradicionais e culturais, uma relação que começou, inclusive antes do nascimento da OPEP. Não se esqueçam que por muitos anos nosso país foi pioneiro no que diz respeito à luta por reivindicações nacionalistas, frente aos interesses das grandes transnacionais do petróleo.

TM – A PDVSA está realmente “politizada”, como acusam os adversários? E, se está, o que o país ganha com isso? RR – A política entrou na PDVSA pelas mãos da antiga “meritocracia”, setor privilegiado que preferiu fazer o país sofrer perdas de cerca de US$ 14 bilhões (NR: greve petroleira de fins de 2002), em seu empenho por não aceitar a vontade popular materializada no respaldo ao presidente Chaves em 8 eleições.

TM – Sim, mas a PDVSA... RR – A PDVSA está comprometida com os interesses soberanos da Venezuela e com o bem-estar de seus habitantes. Na empresa se conjuga o trabalho cotidiano de seus trabalhadores, gerentes, integrantes das Forças Armadas e habitantes das comunidades onde a empresa tem presença. Agora os venezuelanos não apenas participam em iniciativas levadas adiante pela PDVSA como a “Missão Ribas” – cujo propósito é educar e diplomar os que no passado não eram incluídos no sistema educativo – como também exigem respostas da empresa. Entre a PDVSA e o país está se construindo uma relação profunda como nunca houve antes.

TM – No inverno passado, não sei se como provocação, a Venezuela deu ajuda energética – para a calefação – a comunidades pobres de um país rico, os Estados Unidos. Qual o objetivo dessa ação? RR – É certo que os Estados Unidos são um país catalogado como rico, porém, paradoxalmente, é também uma das nações do planeta em que a cada ano aumenta a desigualdade e cresce o número de pobres. O governo bolivariano da Venezuela mantém uma coerência entre discurso e prática em sua luta contra a exclusão. Nesse sentido, a doação de combustível para calefação a setores pobres dos EUA, isso feito através da nossa filial Citgo Petroleum Corporation (NR: mais de 15 mil postos de gasolina e 9 refinarias em território norte-americano), é uma prova do nosso compromisso.

TM – Mais um capítulo... RR – ...é importante destacar que a Venezuela não tem nenhuma confrontação com o povo norte-americano. A confrontação se dá com esse governo que, em suas pretensões imperialistas de apoderar-se das fontes energéticas do mundo, tem agredido sistematicamente o nosso país, e isso está evidente, sobretudo nestes últimos anos. É nosso dever, então, como país, como nação digna, defender nossa soberania e nosso principal recurso em beneficio do nosso povo. Teremos todas as batalhas que tivermos que ter, ainda que nosso caminho seja a nossa cooperação e solidariedade, que, a priori, não descrimina a nenhum povo.


Publicada em 08/12/2006

Voltar

 
 
 
 
Design by 3WF