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A Venezuela e a América Latina: entrevista com o Prof. Nildo Ouriques

Nildo Domingos Ouriques é professor do curso de ciências econômicas da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC, tem doutorado na área de concentração “Economia Mundial e América Latina” pela Universidade Autônoma do México - UNAM e é Presidente do Instituto de Estudos Latino-Americanos – IELA, que representa uma potente organização de pesquisa, ensino e extensão, dedicada ao conhecimento da realidade da América Latina. Em encontro com Cleoni Trindade, Presidente da CAMVEZ – Regional Santa Catarina, apresentou as diretrizes do IELA e a sua visão acerca do atual cenário econômico da América Latina, através da seguinte entrevista:

Como o Sr. define o Instituto de Estudos Latino Americanos e o que ele abrange?

O IELA é o primeiro Instituto desta natureza em uma universidade pública brasileira voltado exclusivamente para o estudo de problemas latino-americanos. Ademais, trata-se de um Instituto que organiza pesquisa e está capacitado para prestar assessoria econômica e política a governos, empresários e movimentos sociais interessados na integração soberana dos povos latino-americanos. Neste sentido, é preciso dizer que estamos vivendo uma época muito especial, uma conjuntura que talvez não se repita em muitas décadas, razão pela qual não podemos perder tempo: avançar na integração latino-americana é uma obrigação de todos aqueles que realmente querem ver o fim do subdesenvolvimento e da dependência na América Latina. Finalmente, o IELA conta com grande capacidade de convocação de pesquisadores na UFSC, do Brasil e de outros países da América Latina para enfrentar tarefas e desafios que todo processo de integração supõem.

Como o Sr. vê a integração na América Latina?

A maioria dos economistas ignoram que existe apenas uma forma de chegar ao êxito econômico: aquele caminho adotado pelos países centrais, pelas potências hegemônicas. O que eles fizeram? Protegeram seus mercados, praticaram o protecionismo em ampla escala, fortaleceram o estado nacional e com este apoio criaram grandes empresas estatais e privadas para derrotar seus adversários. Ora, a elite empresarial latino-americana desconhece esta lição básica do sucesso> Em lugar de repetir o caminho percorrido pelos países centrais, decidiram abrir suas economias, eliminar subsídios, desnacionalizar as suas economias, tirar direitos dos trabalhadores e abandonar o desenvolvimento baseado no mercado interno. Ou seja, fizeram o que os países centrais disseram para nós fazer, não o que realmente fizeram!!! O que significa o mercado interno para nossos países? Significa que temos um mercado interno continental que precisa ser protegido, organizado pelo estado, articulando os capitais privados nacionais e priorizando o mercado interno. Significa que devemos criar um mercado interno de massas! Qual o obstáculo? É que uma parte do empresariado nacional, associado com o capital estrangeiro, decidiu faturar em dólares, depositar este dinheiro em bancos estrangeiros ou paraísos fiscais e abandonar a construção nacional. É um pequeno grupo empresarial, mas muito poderoso. Por outro lado, existe uma massa de pequenos e médios empresários que poderiam crescer e se fortalecer com a consolidação de um mercado interno de massas de dimensão continental que ainda não abandonou completamente as ilusões de um dia ser um mega empresário e traficar com os interesses nacionais. Esta massa de pequenos e médios empresários somente têm a ganhar com uma política protecionista, pois além de um mercado a sua disposição, poderão ter também uma aliança com os trabalhadores que necessitam de salários e condições de trabalho urgentemente. Mercado interno significa poder de compra! É uma fórmula keynesiana básica.

Qual sua opinião sobre o ingresso da Venezuela no Mercosul?

Antes da entrada da Venezuela o Mercosul estava morimbundo. A Venezuela abriu uma nova perspectiva para o mercosul. O Mercosul foi pensado em uma outra conjuntura econômica e política, foi pensada como peça de resistência aos planos dos Estados Unidos para dominar as imensas riquezas naturais de nossos países. Contudo, a conjuntura mudou radicalmente: Os Estados Unidos vivem uma profunda crise interna e já não podem impor sua vontade sem grandes custos humanos e econômicos em escala global. Perderam aliados, fundamentalmente. E os países latino-americanos vivem uma profunda transformação que no essencial é uma revolta contra o processo de modernização capitalista impulsionado desde Washington a partir de Ronald Reagan (1982). Trata-se de uma crise do "neoliberalismo", certamente muito profunda. Neste contexto, não existe mais razão para que o Mercosul não estenda suas fronteiras até o México porque, inclusive neste país, o colapso da economia depois do Nafta é evidente. Então não há escolha: ou avançamos para uma integração total da América Latina ou seguiremos fomentando uma economia exportadora que debilita a nação, endivida o estado e expulsa latino-americanos que não possuem sequer trabalho aqui. Observem que as remessas dos imigrantes alcançaram em 2006 uma cifra superior a 50 bilhões de dólares. As elites financeiras e uma parte do empresariado que acumulam especulando com títulos da dívida pública ficam muito felizes com este resultado, mas o volume de recursos enviados para nossos países por milhões de trabalhadores que são humilhados e ofendidos em Europa e Estados Unidos é um atestado de que o modelo fracassou. Não há fortalecimento das empresas pequenas e médias que seguem atrofiando o mercado interno e aumentando a violência urbana e rural. Por isso, a idéia da ALBA é fundamental para nosso destino comum. E esta visão somente foi possível após o ingresso da Venezuela. E o fundamental: Bolívia e Equador também devem entrar o mais rapidamente possível, juntamente com outros países.

O Sr. entende que pode ocorrer um trabalho conjunto entre o Instituto e a Câmara de comércio em Santa Catarina?

É claro que podemos enfrentar desafios conjuntamente. Estamos abertos a qualquer conversa que fortalece nossos países, nossos estados e nossas economias. Há, certamente, uma margem muito ampla de cooperação. As universidades podem oferecer muitas alternativas para nossos problemas porque possuem uma capacidade ainda desconhecida de muitos setores sociais. Nosso Instituto busca precisamente fazer esta ponte.

Como o Sr. vê a conjuntura econômica da Venezuela?

A Venezuela está em transição. Após o fracasso do golpe e a arrasadora vitória do Presidente Chávez, é um país que pode centrar suas energias na consolidação de um modelo econômico diferente daqueles que ainda sofremos em outros países. A taxa de crescimento e, especialmente a taxa de investimento da economia cresce como nunca. Melhor ainda, cresce estruturando outro modelo de acumulação, sem as tensões dos modelos tradicionais, inspirados no neoliberalismo. O Estado é o agente reitor do processo, como ocorre nos Estados Unidos, Japão, China e Alemanha. Contudo, os venezuelanos são muito criativos, seguem Simón Rodriguez (inventamos ou erramos) e estão avançando na área social, nas formas de propriedade, na organização política, no aumento da produtividade, na diminuição da dependência agrícola, etc. Devem avançar também em ciência e tecnologia, não pode perder tempo e dinheiro nesta área. Estão eliminando o rentismo petroleiro que é destruidor da razão e da riqueza. Eu gostaria que o avanço fosse mais rápido, mas posso entender os imensos obstáculos. De todas formas, não podem perder esta oportunidade única que a situação global e regional oferece.

Quais os desafios que o Sr. vislumbra na integração latino-americana?

Quanto aos desafios são muitos. De todas formas, devemos centrar nossas energias intelectuais e políticas nesta imensa e gratificante tarefa de construir uma Pátria Grande que começa no México e termina na Argentina. Superar a miséria em um continente tão imensamente rico, com muita gente capaz e capacidade de criação. Há desafios na integração energética, certamente. Mas devemos avançar em outras áreas: a exploração conjunta da amazônia, a criação de um Banco do Sul, a exploração das energias alternativas (biomassa) e instituições como o parlamento latino-americano dotado de poder de decisão. Enfim, a fórmula só pode ser uma: ceder soberania nacional para ganhar poder continental. Não há outro caminho, insisto: colocar todas nossas energias nesta tarefa e esquecer as tradicionais rivalidades que serviram apenas para nos dividir em favor das potências de sempre, especialmente dos Estados Unidos.


Publicada em 01/06/2007

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